09 fevereiro 2008

A TRILOGIA DAS CORES de Krzysztof Kieslowski


A propósito da Decl. Univ. dos Direitos Humanos, referida no post anterior, que comemora a 10 DEZ 2008, 60 anos desde que foi aprovada pela ONU, em 1948, como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e nações, lembrei-me da Trilogia de Kieslowski.


A idéia de produzir um documento que formalizasse os direitos humanos é antiga. Há 300 anos, na Inglaterra, foram publicados os direitos dos cidadãos ingleses, não fazendo qualquer alusão aos direitos humanos gerais. Nos EU, em 1776, as colónias que se rebelaram justamente contra os ingleses também produziram a sua versão de direitos humanos. Mas foram os 17 artigos da Declaration des Droits de L'Homme et du Citoyen­, surgidos da Rev. Francesa em 1789, que mais influíram na redação do documento aprovado pela ONU.

Reza assim o 1ºartigo da Universal Declaration of Humam Rights:
"Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade."


Liberdade,
Igualdade e
Fraternidade,
o lema francês, colorido pelas 3 cores da Bandeira de França:
Azul,
Branco e
Vermelho, respectivamente.

Krzystof Kieslowski, um cineasta polaco que morreu em 1996, deixou-nos várias obras interessantes, mas o seu maior sucesso comercial foi A TRILOGIA DAS CORES: 3 filmes inspirados nas 3 cores da Bandeira Francesa e nas palavras que representam.

A liberdade (representada pela côr azul) é, de uma maneira negativa, a ausência de submissão, de servidão e de determinação, isto é, ela qualifica a independência do ser humano. De maneira positiva, ela designa a autonomia e a espontaneidade de um sujeito racional, ou seja, ela qualifica e constitui a condição dos comportamentos humanos voluntários, desenvolve as potencialidades de cada um e aproxima o homem de si mesmo, motivando a ter auto-estima.

O conceito de Igualdade (representada pela côr Branca) descreve a ausência de diferenças de direitos e deveres entre os membros de uma sociedade. Na sua concepção clássica, a idéia de sociedade igualitária começou a ser cunhada durante o Iluminismo, para idealizar uma realidade em que não houvesse distinção jurídica entre nobreza, burguesia, clero e escravos. Mais recentemente, o conceito foi ampliado para incluir também a igualdade de direitos entre gêneros, classes, etnias, orientações sexuais etc..

A palavra Fraternidade (representada pela côr vermelha) é frequentemente confundida com a expressão caridade e solidariedade, embora elas tenham significados diferentes. Enquanto a fraternidade expressa a dignidade de todos os homens, considerados iguais e assegura-lhes plenos direitos (sociais, políticos e individuais), a idéia de caridade cria a desigualdade entre os homens, na medida em que faz crer que alguns deles possuem mais direitos e são superiores e portanto são generosos quando os compartilham com os demais.

Os filmes desta trilogia são muito metódicos e fieis aos temas. Em cada um é notória a predominancia da côr nas imagens. É como se a côr do tema inundásse a pelicula.

Azul venceu o Leão de Ouro do Festival de Veneza em 1993. Fala-nos de uma mulher que perde o marido e a filha num acidente de viação. Após silenciar muita da sua dor, chega à conclusão que possuir é sofrer, e, criar laços traz agonia... Como solução, liberta-se de tudo o que têm e afasta de si todos aqueles que a amam. Ser livre torna-se o seu principal objectivo. Liberdade total de bens e de sentimentos sobre o pano de fundo sempre azul.


Branco recebeu o Urso de Prata no Festival de Berlim em 1994. Branco é o casamento entre uma Francesa e um Polaco que não dá certo. Este casamento encontra-se já na fase de divorcio quando o filme começa. Há aqui um problema de linguagem... A Francesa acusa o marido em pleno tribunal e é um interprete que tem de traduzir as acusações ao marido... O realizador faz-nos sentir que há uma desigualdade na maneira como aquele estrangeiro é tratado pelo juiz e mais tarde os problemas que enfrenta para regressar ao seu país. Apesar do grande amor que o Polaco sente pela mulher, arquitecta um plano para a fazer passar pelo mesmo pesadelo que ele passou, aliciando-a a visitar a Polónia e simulando uma situação desagradável que a levará à prisão. "Olho por olho, dente por dente"

Vermelho, foi seleccionado para a competição oficial em Cannes do mesmo ano. Uma Jovem modelo que vive sozinha. Um Juiz na reforma que escuta as conversas telefónicas dos vizinhos. Uma cadela que é atropelada pela rapariga mas que pertence ao juiz, une-os por casualidade. O juiz é um homem frio e desinteressado pela vida na altura em que a rapariga aparece. A jovem é uma pessoa boa, sempre pronta a ajudar toda a gente, algo carente. Apesar de condenar o que o juiz faz, ela sente pena dele, da sua solidão e não consegue afastar-se. No fundo ela própria procura companhia e amparo. Gera-se uma relação de apoio mútuo que os vai unir num amor fraterno.

Para além dos enredos particulares a cada filme, descobre-se entre os 3, um fio condutor. O local onde todas as histórias se entrelaçam é o Tribunal. E a mesma cena aparece nos 3 filmes de prespectivas diferentes. Todas as histórias culminam no filme Vermelho, a bordo do FerryBoat que naufraga deixando apenas 6 sobreviventes... (e mais não digo....) Simplesmente deliciosos, inexplicávelmente maravilhosos, surpreendentemente enigmáticos, magicamente inesquecíveis.

1 comentário:

  1. Esta e outras trilogias disponiveis no Cineteka, video-club online:

    http://www.cineteka.com/index.php?op=MovieSearch&argumento=Krzysztof+Kieslowski

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