21 abril 2009

O PAPALAGUI NUNCA TEM TEMPO

Excerto do Livro "O Papalagui - Discursos do chefe da tribo de Tiavéa nos mares do sul". Estes discursos destinavam-se apenas aos seus compatriotas polinésios, no entanto, Erich Scheurmann resolveu transmiti-los aos europeus sem conhecimento do chefe Tuiavii, uma vez que achou importante a mensagem ingénua mas bastante sábia contida em tais palavras. Esta é a forma como um indigena nos vê. Não entende o porquê de muitos dos nossos hábitos ou atitudes. E eu também não, francamente!

Numa altura em que as 24 horas do dia não me chegam, lembrei-me de partilhar convosco estas palavras. O Papalagui é o nome que o indigena dá ao homem branco.

"O Papalagui nunca está contente com o tempo que lhe coube e censura o grande espirito o não lhe ter dado mais. Chega mesmo a blasfemar contra Deus e a sua sabedoria, dividindo e subdividindo cada novo dia que nasce, segundo um plano bastante preciso.

Corta-o como se cortasse os pedaços de um noz de coco mole com um cutelo. As várias partes têm todas elas um nome: segundo, minuto, hora. (...) É uma coisa muito confusa que na realidade nunca percebi, (...) O Papalagui, no entanto, faz disso uma ciência. Os homens, as mulheres e até as crianças que ainda mal se têm nas pernas trazem consigo, quer presa por grossas cadeias de metal que lhe pendem do pescoço, quer atada ao punho com a ajuda de uma correia de coiro, uma pequena máquina achatada e redonda onde podem ler o tempo, o que não é mesmo nada fácil.

Ao ouvir o barulho da máquina do tempo, queixa-se o Papalagui assim: »» Que pesado fardo! mais uma hora que se passou! »» E ao dizê-lo, mostra geralmente um ar triste, como alguém condenado a uma grande tragédia. No entanto, logo a seguir principia uma nova hora!

Como nunca fui capaz de entender isto, julgo que se trata de uma doença grave. »» O tempo escapa-se-me por entre os dedos! O tempo corre mais veloz que um cavalo! Dá-me mais um pouco de tempo «« Estes são os queixumes do homem branco.

(...) Suponhamos, com efeito, que um Branco tem vontade de fazer qualquer coisa e que o seu coração arde de desejo por isso: que, por exemplo, lhe apetece ir apanhar sol, ou andar de canoa no rio, ou ir ver a sua bem-amada. Que faz ele então?

Na maior parte das vezes estraga o prazer com esta ideia fixa: »» Não tenho tempo para ser feliz ««. Mesmo dispondo de todo o tempo que queira, nem com a melhor boa vontade, o reconhece. Acusa mil e uma coisas de lhe tomarem tempo e, de mau grado e resmungando, debruça-se sobre o trabalho que não tem vontade nenhuma de fazer (...). Quando de repente se dá conta que tem tempo, que tem realmente todo o tempo à sua frente, ou quando alguém lhe dá tempo - os papalaguis dão frequentemente tempo uns aos outros, é mesmo a acção que eles apreciam mais - nessa altura, ou já não tem vontade, ou já se cansou desse trabalho sem alegria.

Como vivem obcecados pelo medo de perder tempo, todos os Papalaguis sabem com exactidão quantas vezes nasceu o sol e a lua desde que viram pela primeira vez a luz do dia. Este acontecimento é tão importante que o celebram, a intervalos de tempos fixos e regulares, com flores e grandes festas. Reparei, muitas vezes, que eles no meu lugar, se sentiam envergonhados quando, ao perguntarem-me a idade que tinha, eu não era capaz de responder a tal pergunta.

(...)Ter uma idade, quer dizer: Ter vivido um determinado número de luas. Isto de se perguntar qual o número de luas apresenta grandes perigos, pois foi assim que se acabou por determinar quantas luas dura em geral a vida dos homens. Ora acontece que cada um, sempre muito atento a isso, passadas que foram inúmeras luas, dirá: »» Pronto! não tarda muito que eu não morra! »» Nada mais então lhe causa alegria e, de facto, acaba por morrer daí a pouco tempo."


Tomei conhecimento deste livro através da Isabel do blog
A Escola é Bela. Nesse artigo do link directo encontram outro excerto do mesmo livro. O livro é um clássico e faz parte do Plano Nacional de Leitura (LER+).

7 comentários:

  1. Não conhecia. Gostei muito. :)

    Se qualquer um de nós associa os impostos a coisas más, para ti deve ser uma época infernal!
    :)

    Beijinhos. :) :) :)

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  2. É um livro fantástico, na minha opinião devia ser de leitura obrigatória!
    Aprendemos, inspiramo-nos, rimos e reflectimos! :)

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  3. Gasparzinha, falas em impostos e eu fico indisposta! Já vomito esta trampa de profissão :-( Oh God!

    Mary, também já leste? É super engraçado e educativo até! São reflexões em catadupa. Gostei imenso de o ler.

    Recomendo-o Gasparzinha.

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  4. Rute!!! Já vi que compraste mesmo o livro...
    Pois quanto ao que dizes da tua profissão o excerto do livro que eu "postei" era mesmo sobre isso não era? (Estão a acabar-se os tempos de uma só profissão :) ).
    Pois lá se vai o meu post sobre o tempo que já andava a preparar há tempos! Estou a brincar, vou escrevê-lo na mesma daqui a uns tempos ;) Já me facilitaste a vida que assim já não preciso de "gastar os dedos" a passar este texto do Papalagui, faço um link para este teu post e pronto! Assim já dá mais espaço (e já tenho mais dedo) para acrescentar as outras coisas que queria escrever sobre o tempo e evito o Tempo I, II e III... :) :)
    Obrigada por teres referenciado! Eu também li o livro há relativamente pouco tempo (algumas luas:) ), embora já tivesse ouvido há tempos falar nele! Será que não dá para deixarmos de falar em tempo??? Realmente... :D
    Beijinhos
    Gosto muito das tuas reflexões e também gostei da imagem do Dali, vem mesmo a propósito :)
    Isabel

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  5. Ora, e mal sabia eu que ia poupar-te dedos!!!

    Sim que isto de transcrever um texto ainda dá algum trabalho.

    Podes servir-te do texto a teu belo prazer. Também gostei muito destes 2 outros capitulos:

    "Das arcas de pedra, das gretas de pedra, das ilhas de pedra e do que há entre elas"

    "A grave doença de estar sempre a pensar"

    Eu tenho esta doença :-(( Nem sei se é bom, se é mau. Mas às vezes fico um bocado cansadita da minha cabeça! Beijinhos e boa noite.

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  6. "A grave doença de estar sempre a pensar" .

    Eu sou daquelas pessoas que come, come, e fica sempre magra...
    Muitas vezes dizem-me que devo ter um bichinho na barriga e eu respondo que devo tê-lo é na cabeça - nunca pára!
    Sempre a pensar, sempre a pensar.
    E estou contigo: nem sei se é, se é mau!
    :)

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  7. Não é um bichinho na cabeça, são muitos, eu e tu temos uma praga de neurónios ih ih ih. Só que esta praga não dá comichão. Mas às tantas até pode ser contagioso. Estas blogueiras andam todas a pensar muito, não achas?

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