
Sempre fui apaixonada por provérbios populares, frases célebres, parábolas, fábulas e histórias bíblicas. Para terminar a blogagem colectiva espiritual ecumênica, escolhi um provérbio português como título e um gelado que é tudo menos um pecado. Uma parábola reflexiva e um animal em vias de extinção. Como é que tudo isto se interliga? Vamos ver...
Os provérbios são sabedoria popular que foi transmitida de geração em geração, desde a antiguidade, repetidos constantemente perante situações idênticas, pois estão relacionados com aspectos universais da vida. O provérbio é fácil de decorar, simples de entender, curto e directo.
"Dá Deus nozes a quem não tem dentes" é o provérbio português irmão do provérbio brasileiro "Deus dá nozes, mas não as quebra". Ou ainda o primo espanhol "Dios le da sombrero, al que no tiene cabeza" :)
Julgo que o significado todos conhecem! Pelo que vou passar ao gelado saudável alusivo ao fruto do provérbio:
INGREDIENTES:
CONFECÇÃO:
Deitar os iogurtes na cuba da sorveteira. Misturar o açúcar e as nozes. Ligar a sorveteira. Ao servir as bolas de gelado pode juntar mais nozes picadas como topping. As pecãs são umas nozes mais suaves que as tradicionais.
DO GELADO À LAGARTIXA...
DA OSGA AO MISTICISMO...
DO MISTICISMO À ESPIRITUALIDADE...
Pode parecer complexo mas não é. No fundo tudo são pontes e as reflexões encadeiam-se naturalmente. Estáva eu a saborear o magnifico gelado saudável quando recebi a visita da amiga lagartixa que vive na minha horta de varanda :) E foi nesse momento que associei a lagartixa, também chamada de osga ao tema deste Domingo: MISTICISMO X ESPIRITUALIDADE.
As lagartixas são animais incompreendidos há séculos pela humanidade. Juntamente com os sapos, as cobras, os escorpiões e outros lagartos, foram frequentemente associadas a bruxaria e práticas místicas. Consideradas por muitos, animais das trevas talvez por seus olhos esbugalhados, sem pálpebras, sua forma de andar rastejante, suas ventosas que as ajudam a trepar paredes, foram e são, assassinadas, brutalmente, devido ao mito de serem perigosas! Quando são inofensivas!
Descobri recentemente que a lagartixa, ou osga urbana, está em vias de extinção. Os miúdos adoram presseguir este bichinho com pedras e paus, especialmente porque a osga tem um mecânismo de defesa muito interessante. Quando lhe é cortado o rabo, ele continua a mexer por forma a servir de distracção ao predador, podendo assim a presa fugir. Sim, porque a lagartixa não morre quando lhe é cortado o rabo. Inclusivamente nasce novo rabo como que por magia. Talvez dai venha a relação com o ocultismo.
Não me querendo alongar demais no blá blá blá, deixo-vos a parábola da lagartixa. Tirem as vossas próprias conclusões, filosofem sobre o quotidiano:

«Era uma lagartixa que morava dentro de um relógio de luz. Aprendeu com o tempo a entender os mistérios da luz e dos números. E assim vivia.
Num belo dia, resolveu abandonar os números e dedicar-se à luz. Mas passaram-se alguns anos e a lagartixa começou a perceber que sentia falta dos números, porém não sabia como voltar a ter comunhão com eles sem deixar a luz. Pois a luz tomou conta de sua vida, seus anos, seus dias, horas, minutos, segundos...
Em meio deste drama todo, outra coisa lhe aconteceu. Cresceu uma corcunda sobre suas frágeis costinhas. Além do fardo que carregava de ser guardiã da luz, da falta que seus números faziam, agora estava obrigada a suportar o peso de uma corcunda. No mundo em que a lagartixa foi criada, luzes e números não convivem muito bem. E mesmo sem entender a razão destas imposições, ela vivia obediente ao sistema, pois aprendeu também, lições importantes de mestres e discípulos, liderança e obediência...
E assim o tempo corria e crescia também uma coceirinha na cabeça e na corcunda da lagartixa. A coceira na cabeça se dava pelo facto de não entender as razões-sem-razão do sistema que ela fazia parte. E a coceira da corcunda, ela descobriu quando, ao se esfregar contra uma pedra, em meio ao sangue que escorria, havia algo que parecia querer sair de dentro dela.
Efectivamente havia sim: toda lagartixa que ama luz e números recebe um par de asas. As asas servem para deixá-la mais forte e apta a lidar com a luz e os números sem criar conflito com o sistema. Então, daquela ferida e daquele sofrimento, nasceu um par de asas. Tomada pelo êxtase de ter recebido asas, tentou pular do galho de uma alta árvore. Pulou. Ao cair, se viu presa noutro galho. E ao tentar escapar, teve sua cauda violentamente arrancada. Triste, sozinha, machucada e caída no chão, enquanto enxugava as lágrimas sentiu como se fossem cócegas e quase sem nada sentir, viu nova cauda nascer no lugar da que havia sido cortada.
Com a história do salto imperfeito, a lagartixa aprendeu que: quanto maior a queda, mais rápido nasce nova cauda. A partir desse dia ela passou a treinar saltos para alçar vôos. Por fim, não sem muito tentar, conseguiu ficar poucos segundos no ar. Aquilo foi uma glória para a lagartixa.
Antes mesmo de chegar ao chão, ela havia decidido: Custe o que custar e doa em quem doer, sem deixar minha preciosa luz, voltarei a ter com meus queridos números. O que ela não sabia é que sua decisão de amor geraria o ódio dos que se diziam amigos. Aprendeu outra lição: Os verdadeiros amigos deveriam amar a luz e aos números tanto quanto ela. Foi dessa maneira que em sua caminhada já fora de sua comunidade, encontrou outros bons amigos amantes da luz e dos números, assim como ela.
Facto interessante aconteceu quando depois de muito conviver com os novos amigos, veio descobrir que entre eles não havia outra lagartixa como ela. Mas como só havia convivido com lagartixas sua vida inteira, achava que só viveria em harmonia com “os seus”. Mais uma lição para o “baú da lembrança”: uma face amiga nem sempre é reconhecida através de um espelho. Na diferença se pode encontrar amizade. Sem muito procurar entender, viu que seu grupo de amigos era formado por besouros, gafanhotos, grilos, minhocas...
Só não participavam os mosquitos e as baratas. Esses servem como alimento. Assim a lagartixa descobriu que a luz é mais útil onde há escuridão para ser iluminada. A chama de uma vela é dispensável num lugar onde cada um possui uma vela na mão. Mas uma vela acesa dentro de uma caverna escura, traz luz ao ambiente e calor aos corações presentes.
E os números não servem para nada em comunidades que vivem sem contar os dias, os benefícios e os males. Por isso a lagartixa sentia tanta falta dos seus números, pois no fundo, sabia que não pertencia a aquele lugar. É importante contabilizar derrotas, vitórias e dias vividos, porque no balanço geral da vida, podemos saber se temos tido lucro ou prejuízo. Alguém que não contabiliza os elementos da vida é porque já não se importa com a vida. Finalmente a lagartixa se viu feliz e livre. Liberdade de amar os diferentes, de levar luz aos que estão no escuro e de ajudar a lidar com números os que mal sabem contar...Liberdade gera responsabilidade. Ser livre é ter que pensar por si só e assim, ser responsável por enfrentar as conseqüências de suas decisões. Qualquer pessoa que aprenda a voar, iluminar e contar como uma lagartixa, será uma pessoa responsável, livre e feliz!»
NOTAS NÃO MENOS IMPORTANTES:
As lagartixas são insectivoras, alimentam-se de insectos, larvas, aranhas e são um insecticida natural importantissimo para promover o equilibrio no caso de pragas nas hortas e jardins.
A tradição popular diz ainda que não é prudente espantar lagartixas, porque da mesma forma que elas grudam na parede, elas significam sorte que adere à nossa casa. Assim como um grilo que canta à nossa porta, deve ser deixado em paz porque essa música anúncia o dinheiro a entrar em nossa vida :)
Por fim, partilho convosco uma origem engraçada. O sitio onde vivo chama-se Parede, uma freguesia do Concelho de Cascais, distrito de Lisboa. E não é que aos habitantes da Parede chamam não só paredenses como também "osgas"!!!! Pois é!! Afinal eu sou uma "osga" :) Uma lagartixa que trabalha com números e que quer voar nas asas da espiritualidade! Tem tudo a ver com este post não tem?
Encerramos então o passatempo com chave de ouro. Despeço-me de todos os participantes, muito grata pelas partilhas reciprocas.